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O LIVRO
Charles Bukowski: vida e loucuras de um Velho Safado
344 páginas
Formato fechado: 16 x 23 cm
Papel miolo: Polen Rustic Areia 85 g/m2
Papel capa: Supremo 250 g/m2
Tiragem inicial aqui no Brasil: 3.000 exemplares
Distribuição nacional, em livrarias e pontos alternativos.
PREFÁCIO
Charles Bukowski levantou-se da cadeira e pegou uma cerveja na geladeira,
atrás dele, no palco. A platéia aplaudiu enquanto ele bebia,
emborcando a garrafa até tomar a última gota dourada.
"Isto não é uma muleta", disse ele, falando lentamente,
com uma cadência na voz, como W. C. Fields. "É uma necesssssidade."
A platéia riu e aplaudiu. Uma jovem na frente gritou que ele era
um velho legal. De fato, aos cinqüenta e dois anos, Bukowski tinha
idade suficiente para ser pai da maior parte dos garotos que ali estavam
para ouvir sua leitura e, por isso, sua atitude tornava-se muito mais
engraçada. Bukowski tinha uma aparência estranha e um modo
peculiar de falar. Era um homem alto, de um metro e oitenta, encorpado,
com uma barriga de cerveja, mas sua cabeça parecia grande demais
para o corpo, e o rosto era assustador como uma máscara de Frankenstein:
queixo comprido, lábios finos, olhos tristes, apertados e encovados.
Um grande nariz de beberrão, vermelho e roxo, com veias rompidas,
e uma barba grisalha e desigual sobre a pele oleosa, marcada pela acne:
pele tão ruim que parecia trazer as marcas de uma queimadura.
Voara para São Francisco, em setembro de 1972, levado pelos editores
da City Lights Books, em razão do sucesso de uma coletânea
de seus contos, Erections, Ejaculations, Exhibitions and General Tales
of Ordinary Madness* [Nota de rodapé: * Esse livro foi lançado
no Brasil em dois volumes:
Ereções, Ejaculações e Exibicionismos (Porto
Alegre: L&PM, 1984. 2ed.) e Crônica de um Amor Louco (São
Paulo: Círculo do Livro, 1989). (N. de E.)]. O livro era dedicado
a sua jovem namorada, Linda King:
who brought it to me
and who will take it
away
quem o trouxe a mim
e quem vai levá-lo
embora
Oitocentas pessoas
pagaram para entrar em um ginásio em Telegraph Hill, ansiosas por
ver o autor de Life in a Texas Whorehouse e outras histórias chocantes,
aparentemente autobiográficas. A idéia de aparecer diante
delas aterrorizava Bukowski. Embora sua aparência causasse um certo
impacto, era um tímido inveterado e odiava a si mesmo por ter arrastado
seu traseiro até a cidade dos escritores beatnik, um grupo do qual
não gostava e no qual não se inseria.
Bebera durante todo o dia para criar coragem. No vôo de Los Angeles
pela manhã, no restaurante italiano em que ele e Linda almoçaram
e atrás da cortina enquanto esperava a deixa para entrar em cena.
Seu rosto estava cinza de medo. Vomitou duas vezes.
"Sabe, é mais fácil trabalhar em uma fábrica",
disse ao amigo Taylor Hackford, que filmava um documentário. "Não
tem essa pressão." A multidão o conhecia por seus contos,
mas Bukowski leu poesia. Poemas sobre bebida, jogo, sexo e até
mesmo idas ao banheiro ele sabia que só o título "piss
and shit" já os faria rir.
"Vejam, alguns desses poemas são sérios, e tenho que
me desculpar porque sei que algumas platéias não gostam
de poemas sérios. Mas tenho que ler alguns de vez em quando para
mostrar que não sou uma máquina de beber cerveja."
Escolheu um poema sobre seu pai, a quem odiara com toda a força.
Chamava-se "the rat":
with one punch, at the age of 16 and ½,
I knocked out my father,
a cruel shiny bastard with bad breath,
and I didn¹t go home for some time, only now and then to try to get
a dollar from dear momma.
it was 1937 in Los Angeles and it was a hell of a
Vienna.
...
me? I¹m 30 years older,
the town is 4 or 5 times as big
but just as rotten
and the girls still spit on my
shadow, another war is building for another
reason, and I can hardly get a job now
for the same reason, I couldn¹t then:
I don¹t know anything I can¹t do
anything.
com um murro, aos
16 anos e ½,
derrubei meu pai,
um filho da puta cruel com mau hálito,
e não voltei para casa por um tempo, só vez por outra para
batalhar um dólar com a querida mamãe.
era 1937 e Los Angeles era uma grande
Viena.
...
eu? Tenho 30 anos,
a cidade está quatro ou cinco vezes maior
mas tão acabada quanto
e as garotas ainda cospem quando
passo, outra guerra se cria por outra
razão, e não consigo emprego agora
pela mesma razão de outrora:
não sei fazer nada, não consigo fazer
nada.
Parecia que ia chorar
quando terminou os últimos e tristes versos, mas mudou de repente
e começou a representar o rebelde novamente. "Eu conheço
você?", perguntou a uma fã, que fez um pedido. "Não
seja insolente, gracinha...", ameaçou, desatando a rir. "Mais
uma cerveja e vou pegar todos vocês." Jogou a cabeça
para trás, deixando à mostra os dentes estragados, e gargalhou.
"Ha, ha, ha. Cuidado!"
Outro fã tentou subir no palco.
"Que diabos você quer, cara? Sai do meu pé!", disse
Bukowski, como se falasse com um cachorro.
"Quem é você, algum babaca?" O público gritou
e gargalhou. Alguém perguntou quantas cervejas ele conseguia beber.
Outros não estavam tão impressionados e exigiam que Bukowski
parasse de perder tempo. Eles haviam pago para ouvir sua poesia, não
para ver um bêbado. "Vocês querem poemas?", provocou
os alunos, antipatizando com suas roupas caras e rostos despreocupados.
"Implorem."
"Foda-se, cara!"
"Mais algum comentário?"
Quanto mais bêbado ficava, mais hostil se tornava, e mais hostilidade
recebia da platéia. "No final, eles atiravam garrafas",
recorda o poeta beat Lawrence Ferlinghetti, dono da City Lights Books,
que abriu caminho, à força, para tirar Bukowski de lá,
pensando em sua própria segurança.
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