HomeBaderna Utopias Piratas: corsários, mouros e renegados
Utopias Piratas: corsários, mouros e renegados
Peter Lamborn Wilson
"Vá dizer ao rei da Inglaterra, vá contar que eu mandei dizer /
Se ele reina como rei de toda a terra, eu vou reinar como rei do mar"
(da balada "A Batalha Naval entre o Capitão Ward e o Arco-Íris")
As histórias de piratas sempre foram fonte de inesgotável fascínio. Não
bastassem os perigos próprios do mar, aqueles homens acrescentaram às
suas aventuras o sentido da liberdade e de uma ética peculiar, fazendo
as delícias de narrativas românticas como as de Robert Louis Stevenson
ou as mais realistas de um Daniel Defoe, entre outros.
Pois Peter Lamborn Wilson, especialista em história das heresias e da
pirataria, demonstra neste seu ensaio que a história real pode ter sido
ainda mais inusitada do que as fábulas que ela inspirou. Segundo o historiador
Marcus Rediker, "Peter Lamborn Wilson mostra por que adoramos piratas
- e por que, a bem do futuro, devemos continuar a fazê-lo".
Os piratas precisavam de quartéis-generais. O relato dos portos apropriados
por eles - e dos sistemas administrativos que eles criaram, alguns bastante
inesperados para a época -, começa com Hispaniola (a São Domingos de hoje)
no fim do século XVI. Lá se reuniram náufragos, desertores e escravos
fugidos em uma experiência social idílica, e deram origem às façanhas
do primeiro capitão pirata de dimensões míticas, Henry Morgan, que depois
aceitou o perdão real.
No início dos anos 1700 a ação se deslocou do mar do Caribe para o Oceano
Índico. Na costa de Madagascar, surgiram a comunidade de Ranter`s Bay
e a controversa Libertatia (que segundo alguns seria uma mistificação
criada por Defoe com objetivos políticos, tendo ou não por fundamento
uma história real). E, finalmente Nassau, de volta às Bahamas, a última
utopia pirata clássica.
Mas o cenário mais surpreendente se dá no norte da África, na Costa da
Barbária. Do final dos anos 1500 até o século XVII, corsários europeus
se tornaram muçulmanos, e lutaram ao lado do Islã, na contramão das conquistas
dos Cruzados. Capitães como o Barba-roxa, Morat Reis e John Ward devastavam
a frota européia, fazendo milhares de prisioneiros. Ao lado desses, milhares
de outros europeus se converteram espontaneamente, vivendo e trabalhando
em portos piratas como Argel, Túnis e Tripoli.
Numa pequena comunidade, Rabat-Salé, e por cerca de 50 anos, na primeira
metade do século XVII, os renegados alcançaram a independência em relação
ao Império Otomano, erigindo uma república corsária. Uma comunidade que
seria descrita em relatos europeus como "domicílio de vilões, antro de
ladrões, lar de piratas, ponto de encontro de renegados, matadouro de
crueldade bárbara e barbárie selvagem, perdição e vergonha para frotas
mercantes e mercadorias, e uma miserável masmorra sombria para cativos
cristãos".
A isso, os estudos de Wilson indicam que ao retrato dessa experiência,
hoje quase esquecida, poderia ser acrescentado refúgio para místicos sufis,
pederastas, fumantes do kif (maconha), "irresistíveis" mouras, rebeldes
irlandeses, judeus hereges e espiões britânicos, numa receita explosiva
de comunidade insurrecionária.
Teriam sido essas utopias um mero acidente histórico, ou a própria semente
da democracia, precursoras do ímpeto revolucionário que, a partir de 1640,
emergiu na Inglaterra, e depois na América e na França? Ou o elo perdido
entre a república, tal como foi vislumbrada pelos gregos, e a moderna
democracia?
O que os marinheiros, o proto-proletariado do século XVII, teriam invejado
e aprendido com a liberdade dos corsários e renegados? Teriam sido transmitidos,
através dos cavaleiros templários e até as comunidades piratas, conhecimentos
do "Islã exotérico" - como o neoplatonismo, os rituais de transe e a alquimia?
"Sua análise cuidadosa dos renegados, de suas idéias e práticas políticas,
leva à suspeita de que alguns deles podem ter ligações com o rosacrucianismo
e com o Iluminismo do século XVIII. E podem formar uma cultura de resistência‚
de fugitivos de uma civilização econômica e sexualmente opressiva... Historiadores
vão ter que pensar sobre o original tema deste livro e dar continuação
a suas implicações. Wilson realmente vira o mundo de cabeça para baixo!",
disse Christopher Hill, sobre Utopias Piratas.
Peter Lamborn Wilson é estudioso das heresias e da pirataria. Escreveu sobre
o sufismo, a seita dos "Assassinos", o anarquismo espiritual na América colonial
e as zonas autônomas temporárias, inclusive Sacred Drift: Essays on the Margins
of Islam e Scandal: Essays in Islamic Heresy.